27 maio, 2017

FOBIA POR SOLIDÃO

Quem tem pavor da solidão, por mais que tente se mostrar sereno, deixa claro o quanto a sua resiliência é falha ao demonstrar insegurança com o seu futuro no primeiro término de relacionamento. 

Apesar de essas pessoas dizerem que não têm medo de terminar suas vidas sozinhas, e que pouco se importam em ter filhos, pois eles não são certeza de companhia na velhice, são as que mais temem caminharem sozinhas nos últimos anos da sua existência. E lhe dão conselhos como se estivessem prontas; sem nada a aprender ou compartilhar, como um ser hermético, o qual traz em sua bagagem a experiência de muitas vidas, cumprindo a sua última viagem neste plano. Mas, não é nada disso. Talvez para poder ressoar sobre elas mesmas o que não praticam em suas próprias vidas. 

A maioria das pessoas acredita que ser feliz é ter um relacionamento, mas estar acompanhado não é sinônimo de felicidade. Ter um companheiro, ou necessitar da companhia de outras pessoas não garante alegria. Pessoas podem ser solitárias, apesar de estarem rodeadas de amigos. Maturidade é entender que a solidão pode ser algo positivo, mas um relacionamento vazio com certeza não é.


Estar sem uma companhia afetiva por um tempo e ter esta condição como um momento para refletir sobre a relação anterior, os motivos que levaram ao término e, quem sabe, compreender comportamentos condenáveis do ponto de vista moral da pessoa que fez parte dos seus dias, não é falta de amor próprio, pelo contrário, é a prova de o quanto você já se basta. 

Ausência de amor próprio é usar como muleta afetiva o primeiro que se conhece ao dobrar a esquina, ou numa mesa de bar. Essa fase deve ser aproveitada para conhecermos nossos limites, nos preservar e, nos dias em que a solidão for insuportável, lembrarmos de valorizar o quanto uma boa companhia nos nos transbordou, porque completo já somos. De saldo, só nos restará aprender com os erros para não falharmos novamente em um novo relacionamento que estar por vir em nossas vidas.

11 maio, 2017

A MORTE DO SOL

(Foto: Wagner Ferreira)

E lá se vai o Sol mais uma vez. E com ele, a esperança da sua volta. Seu retorno é quase certo diante da nossa pequeníssima fração de existência na Terra. A não ser pela estimativa de seu apagar, prevista para daqui a 35 mil anos, segundo cientistas. Nos seus últimos anos de vida, ele irá aumentar de tamanho, e, possivelmente, a vida na Terra deixará de existir - pelo menos como a conhecemos hoje - já que o calor aumentará consideravelmente com a sua aproximação do planeta. 

Então, pela ameaça distante da morte do Sol, celebremos o nosso Astro Rei, não somente como símbolo de energia e motivação para o começo de um novo dia, mas também pela esperança de retorno de tudo aquilo que já nos fez bem na vida!

10 maio, 2017

ENSINAMENTOS DE UMA MENINA IMPULSIVA

Uma menina me ensinou que era preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Mais tarde, descobri que, para ela, o amanhã era muito tarde, o hoje é ontem e o ontem não interessa.

Como eu, ela se utilizava daqueles que conhecia para curar, momentaneamente, a dor e a solidão. Para isso, ingeríamos doses cavalares de remédios doces e viciantes no início mas, ao passar o efeito, tínhamos exauridas as nossas forças e minadas as nossas já baixas autoestimas, o que só nos deixava mais vazios e sós do que antes.

A via prática para preencher essa lacuna eram nossos corpos, que depois de anos de repressão, sobretudo sobre a mulher, o que antes era preservado para ser desejado e conquistado com os devidos méritos, passou a ser banalizado em nome do "amor livre", do, "meu corpo minhas regras", frase adotada pela menina impulsiva como justificativa das suas "medidas antidepressivas" .

Mas regras não são estanques. Elas são criadas por alguém, ou grupos, interessados em controlar, reprimir ou liberar determinada situação.

À medida em que as regras são claras, que todas as cartas são colocadas à mesa, sabe-se em qual jogo se está entrando, ou, no caso, relacionamento. Estar ciente dos limites impostos a cada um a fim de não se avançar muito sobre a visão de mundo do outro é um dos motivos dessa convenção.

Cada um se relaciona com quem quer e da forma que quiser. Mas, a partir que se vende um discurso falso, com o intuito de somente ser aceito pelo outro, mesmo sabendo que aquela conta será cobrada mais tarde, isso se chama, no mínimo, fraude.


A partir do momento que digo ao meu parceiro que aceito determinados comportamentos estou colocando ele a par de quem eu sou. Cabe a ele avaliar se os meus valores não ferirão os dele, e vice-versa, para que com isso se pense num futuro a dois sem surpresas desagradáveis.

Dessa forma, mesmo depois de um término de relacionamento, após muitas queixas da nossa menina doutrinadora de falta de reciprocidade do seu parceiro, afeto e companheirismo, ela sai da relação por cima, cheia de certeza que fez a coisa certa, pois seus reclames não foram atendidos.

Justo! Cabe ao perdedor reconhecer que foi negligente e não soube manter a chama da paixão acesa de uma pessoa que parecia querer tão pouco do outro.

Mas os dias seguintes mostraram que não foi bem assim. Lembra daquela imagem de donzela, adepta, em parte, de valores tradicionais que seduzem o mais seguro dos homens? Nada disso era real.

A garotinha, que se preocupava com a sua reputação e sobre o que seus pais iriam pensar dela, ao contrário do que acredita, ela subestimou a minha sagacidade ao vender a imagem que mais me agradava e não a que era real. E começa, diante de dos meus olhos, a se comportar como alguém que você não acredita que conviveu por um longo período. A ficha cai de imediato e aquele homem é tomado por um sentimento de raiva, frustração e desprezo por quem tanto admirava, mesmo sem externar a ela tal admiração.

Essa pessoa passa a se comportar como um animal que fora enjaulado há anos, privado dos seus instintos mais primitivos, e quando solto, como fera desembestada, ataca a primeira presa que lhe aparece. Não há critérios de seleção. A fome é gritante. "Foi 1 ano comendo ração, eu quero é sentir o sangue da carne escorrer entre minhas presas e o suco do prazer tomar o meu corpo trêmulo", pensa ela.

Esta mesma menina, que quis doutrinar-me ao seu modo, é expert na arte do disfarce. Sabe usar como poucos suas expressões e tem uma frieza de espantar até o mais gelado dos predadores quando aguardam por horas imóvel o momento certo de atacar a sua presa, independentemente do ambiente hostil à sua volta.

Ela se queixa de falta de amor, afeto e morte gradual do sentimento que dizia sentir por mim. OK. Eis um motivo nobre para a sua insatisfação. Afinal, todos querem amar e ser amados, cada um à sua maneira de dar e receber amor. Uns mais pegajosos, outros através de gestos ou palavras como "eu te amo meu amor", "bom dia minha vida", outrem guardando estas expressões por serem mais cautelosos, pois já foram vítimas de fraudes parecidas como a imputada a ele por essa menina.

O animal está prestes a ter um colapso nervoso. Lembremos que foi 1 ano "enjaulado", mantido, segundo ele mesmo, à dieta regrada. É urgente a tomada de atitude. Mas para isso, é preciso um plano de ação. Voltar à selva depois de tanto tempo requer adaptação. A fera ainda não está pronta para retorno imediato e pode ser alvo fácil de outros predadores. 
A besta sairá faminta, mas tem que atacar presas mais fáceis no início, de preferência, já deixadas combalidas à beira da estrada para ela se alimentar.

Liberta das grades que a aprisionavam, a fome foi saciada. Talvez não tenha sido o manjar esperado, mas satisfez a curiosidade, fez a fera-menina sair da rotina. Já a sensação de ressaca moral, esta é relativa. Se me importo com o sentimento do outro deixado para trás me colocando na mesma situação de frustração que ele se encontra devidos às minhas falsas promessas, posso sentir algum desconforto, mas se tenho autopiedade, condicionando tal ação como a paz do meu espírito selvagem, terei essa culpa diminuída.

A rotina também não foi de toda ruim. Ela fará falta à menina impetuosa. Lembranças de marcas de pés molhados do seu companheiro no tapete do banheiro ou desafios diários à sua inteligência única ficarão, cada vez mais distantes, à medida que ela recorrer a mais um novo alimento que irá, não só saciar sua fome momentânea de carinhos e afetos circunstanciais, mas protelará o seu maior medo: a solidão, que a deixa infeliz e a faz se sentir inferior, ainda que para ter isso precise se colocar numa condição de acesso fácil aos acalentadores de carentes de plantão.    

02 maio, 2017

O CORPO

Mesmo diante de tantas evidências, insistimos em ser céticos e dar esperança à vida. Evitamos repetir equívocos anteriores e formar juízos, ainda que haja despojos espalhados em cenários antes vividos pelos dois.

A cada dia após o anúncio do desaparecimento e possível morte, esta fica cada vez mais certa. Mas, ainda que a frieza das evidências dispostas dentro do contexto nos faça perder a esperança na vida, e, mais ainda, na ressurreição, seremos sempre otimistas com quem amamos. 

Diante disso, ficamos a esperar o rolar da pedra para que essa pessoa venha ao nosso encontro. Só que não foi desta vez que o milagre aconteceu. O corpo já havia sido encontrado por alguém, que àquela altura, também já o conhecia em detalhes.