04 agosto, 2009

O JOGO DO BICHO NA CULTURA POPULAR BRASILEIRA

Wagner Ferreira

Tão popular quanto o carnaval ou futebol, o Jogo do Bicho é tido como contravenção (nem proibido nem incentivado pela lei). Para algumas pessoas é encarado como hobbie, para outras, uma oportunidade de ganhar uma grana extra. Mas apesar da aparente inocência dos apostadores e agenciadores, por trás de toda essa diversão existe a máfia dos caça-níqueis, versões eletrônicas do Jogo do Bicho tradicional, este que teve início com o Barão João Viana Drummond em 1892, com as bênçãos do amigo Dom Pedro II.

De lá pra cá o Jogo do Bicho cresceu e se modernizou, informatizando seus equipamentos e criando ramificações em todo o País. O que antes era encarado pelas autoridades com um “joguinho” sem muitas complicações, hoje passa a ser coibido com veemência pela Polícia Federal.

No ano de 2007 foi deflagrada uma operação simultânea em todo o Brasil, tendo na Bahia casas de bingo fechadas, e caça níqueis apreendidos. Inicialmente as abordagens foram feitas nos principais estabelecimentos de jogos, mas a ação da polícia pode se estender aos pequenos agenciadores que veem nas máquinas uma forma de complementar a renda. É o caso do comerciante Dema Sena, proprietário de um bar no bairro do Uruguai em Salvador há mais de 20 anos, e com a crescente concorrência no ramo de bebidas no local, se viu obrigado a aceitar a proposta dos bicheiros antes da proibição. “Eles chegaram aqui e me ofereceram às máquinas, dizendo que me pagariam 25% das fichas vendidas, na situação que estava não podia resistir, explica seu Dema, que disse já ter obtido um lucro aproximado de R$ 200 por semana.

As atuais ações da PF fez com que esta renda extra fosse ameaçada, depois das apreensões, obrigou o dono de bar a desligar as máquinas até a poeira baixar. “Sabia que não seria punido, mas foi melhor respeitar,” relembra. Atualmente, o comerciante substituiu as máquinas caça-níqueis por fliperamas. Com isso a sua clientela mudou de adultos para adolescentes. “O lucro é bem menor; cada crédito custa R$ 0,30, fico com a metade, tenho ainda que ter o custo da luz e aturar a zoada da “pivetada”, lamenta.


Já seu colega de ofício, que não quis se identificar, possui outro bar na Rua Direta do Uruguai, local bem mais movimentado que o do seu Dema. Ele diz ter recusado uma oferta bem mais tentadora: “O pessoal do Bicho me ofereceu R$ 7mil de luva para que eu retirasse meus três frízeres e as substituíssem pelas máquinas. Eles diziam assumir toda a despesa com eletricista e pedreiro nas adaptações”, relata o comerciante, que assume ter recusado a proposta por ter aderido recentemente à religião evangélica. “Na minha atual condição não ficaria bem apoiar coisas desse tipo em meu estabelecimento”, finaliza.

Entre os jogadores está o marceneiro Delarmando Sanches que vê com naturalidade as interdições das máquinas cáça-níqueis. “Não sou viciado, jogo de vez em quando, mas para quem joga sempre será complicado encarar", diz.
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